Como conheci o Garoto, o coração do violão brasileiro.

“Fazer memória para aprender música”.

O ano era 2009. Eu ainda era um menino de quinze anos que queria aperfeiçoar sua técnica no violão, quando meu professor de música, o multi-instrumentista Júnior Matos, apresentou-me à música “Gente Humilde”. Carregado de admiração e curiosidade, fui conhecendo a obra de Garoto e de demais compositores do choro, da valsa, do samba e da bossa nova. Enquanto evoluía na técnica das cordas dedilhadas, ampliava meu repertório cultural e musical brasileiro. Portanto, pode-se afirmar que o repertório instrumental brasileiro foi a trilha sonora que inspirou todo o meu estudo musical.

Um jovem músico evolui na medida em que se dedica não apenas ao aprendizado técnico, mas também à busca por adquirir familiaridade com a linguagem do gênero sonoro desejado. Conhecer a história e a obra de Garoto é conhecer o coração da música brasileira.

A pedagogia me ensinou que o professor é aquele que oportuniza novidades e desafios a seus alunos. Como parceiro mais experiente, constrói espaços que facilitam a ampliação do repertório cultural dos estudantes, apresentando novos personagens e linguagens diferentes daquelas que seus alunos já conhecem. Portanto, o professor instiga os aprendizes a investigar, pesquisar e, assim, construir seus próprios caminhos de aprendizagem e aprimoramento.

É por isso que hoje trago um pequeno resumo da trajetória artística de Aníbal Augusto Sardinha, o mago das cordas, Garoto, além do álbum “Viva a Garoto”, no qual grandes músicos brasileiros prestam-lhe homenagem gravando algumas de suas obras. Espero que Garoto inspire estudantes e amantes da música brasileira, e que sua obra e sua memória continuem vivas.

Quem o conheceu é unânime em afirmar: “Garoto foi o maior violonista de seu tempo”. Criou um estilo próprio de tocar violão e, se isso não bastasse, renovou os padrões da composição popular. O cantor e compositor João Gilberto foi taxativo: “Garoto é extraordinário, e seu violão é o coração do Brasil”. Baden Powell certa vez confessou: “O que eu toco é pelo Garoto”.

Em 28 de junho de 1915, nasce em São Paulo Aníbal Augusto Sardinha, o cultuado violonista Garoto. Filho de imigrantes portugueses, seu pai tocava guitarra portuguesa e violão. Ainda pequeno, Aníbal se interessou pela música, começando a tocar em uma viola improvisada de pau e corda.

Para ajudar seus pais, começou a trabalhar aos onze anos de idade como ajudante em uma loja de instrumentos musicais no bairro do Brás.

Seu irmão Batista tocava banjo, violão e cantava. Incentivando o irmão, deu-lhe seu primeiro instrumento, um banjo.

Em 1926, com onze anos, Garoto começou a tocar banjo no conjunto Regional Irmãos Armani, sendo conhecido desde então como o “Moleque do Banjo”, seu primeiro nome artístico.

Garoto era um virtuoso das cordas. Estudou música com Atílio Bernardini e composição com João Sepe. Também estudou com Radamés Gnattali, de quem era muito amigo. Com o passar do tempo, foi ampliando o número de instrumentos de estudo. Além do banjo, passou a tocar cavaquinho, bandolim, violão tenor, guitarra elétrica, guitarra havaiana, guitarra portuguesa, entre outros.

Foi no violão que Garoto se impôs como compositor brasileiro, conferindo a ele um papel crucial na evolução da música popular brasileira. Além de toda sua habilidade técnica, inovou ao criar um novo jeito de compor e arranjar os estilos musicais brasileiros, sendo um dos primeiros compositores a acrescentar elementos jazzísticos e eruditos ao samba e ao choro.

GAROTO
Carioca, 1939
http://memoria.bn.br/

Realizou diversas parcerias de trabalho e apresentações artísticas, atuando em várias rádios, como Educadora, Gazeta, Cosmos, Cruzeiro do Sul e Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, e, mais tarde, na Rádio Nacional. Fez apresentações em diversas capitais do Brasil e da América Latina e acompanhou vários cantores e intérpretes.

Em 1939, Garoto marcou presença na Feira Mundial de Nova York, ao lado de outros artistas brasileiros, como Romeu Silva e sua orquestra e Zé Carioca. Impressionando a muitos, sua fama o levou a ser convidado, ainda naquele ano, a integrar o Bando da Lua, acompanhando a cantora Carmen Miranda em sua viagem aos Estados Unidos.

Garoto, Carmen Miranda e o Bando da Lua
Garoto é o primeiro da esquerda, em pé.
https://violaomandriao.mus.br/

Garoto se apresentou com Carmen Miranda, em março de 1940, para o presidente norte-americano Roosevelt, na Casa Branca, por ocasião da passagem do sétimo ano de Roosevelt na presidência dos Estados Unidos.

Voltando ao Brasil, por volta de 1941, retornou à Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, e formou o conjunto Garoto e Seus Garotos.

Suas composições foram interpretadas por ele e por outros artistas, seja em gravações instrumentais ou cantadas. Além de Carmen Miranda, acompanhou outros nomes em gravações, como Carmen Costa, Henricão, Linda Batista, Marilu, Alvarenga e Ranchinho.

Em 1953, gravou, de sua autoria e de Chiquinho, a polca dobrada “São Paulo Quatrocentão”, que, em 1954, seria lançada por Hebe Camargo em versão cantada, com letra de Avaré, por ocasião dos quatrocentos anos da cidade de São Paulo.

Garoto faleceu precocemente no Rio de Janeiro, em 3 de maio de 1955, vítima de um ataque cardíaco, pouco antes de completar 40 anos de idade.

Há quem classifique Garoto como um classicista, capaz de unir a linguagem erudita à rítmica brasileira e à harmonia dissonante. Entre suas várias composições, “Gente Humilde” é a música que recebeu o maior número de versões. Com a letra de dois grandes compositores, Vinicius de Moraes e Chico Buarque conseguiram unir a qualidade melódica de Garoto a cenas ordinárias, simples e dotadas de beleza poética.

Imagens: https://www.marcelobonavides.com/2021/06/relembrando-o-multiinstrumentista-garoto.html